Domingo à tarde. Programa Sílvio Santos. Pais e filhos participam de uma gincana sobre conhecimentos gerais.
— Qual é a profissão do seu pai? — pergunta o apresentador.
— Ah, é melhor nem falar... — responde, encabulada, a menina.
Traficante? Cafetão? Bicheiro? Matador de aluguel? O que, afinal, o pai da garota faz da vida?
— Sou policial — revela o pai, num sussurro.
Lembrei-me na hora dos dois ataques do PCC, em maio e julho de 2006. Sim, daquela “facção criminosa que age de dentro dos presídios de São Paulo”, como diziam alguns veículos de comunicação, na época.
(Como se omitir o nome aliviasse o problema; assim fosse, chamaríamos cocaína de “pó branco comercializado ilegalmente que entorpece, causa alucinações e, inalado em excesso, pode matar por overdose, ou superdosagem”, e estaria acabado o tráfico de drogas).
Sinceramente, me entristeceu ver tal entendimento do mundo por uma criança de 8 ou 9 anos. Pai é super-herói. Mas, no meu tempo (a geração imediatamente anterior à atual), um dos maiores era o pai policial. Forte, valente, invencível. Hoje, nas brincadeiras de polícia e ladrão, luta-se para decidir quem será o bandido. Forte, valente, invencível.
Compreende-se. Na infância, a gente torce para quem ganha, só para não ter o desgosto da derrota. O problema é crescer assim, nessa desordem de conceitos que, lá na frente, elimina o exame de consciência.
Antes, havia a lei e o crime. Hoje, ao que parece, o crime é a lei.