Mostrando postagens com marcador Mídia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mídia. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de maio de 2010

Cirurgia plástica

A 'Folha de S. Paulo' mudou. Graficamente. Claro: nos textos que li na Internet sobre sua reformulação visual, vieram juntas as promessas de renovar esforços pela investigação jornalística, pela exclusividade nas notícias e pela pluralidade de opiniões.

Foi assim da outra vez. E da anterior. A cada reforma do planejamento gráfico de qualquer jornal que se considere relevante e necessário, novas juras de rabo preso com o leitor — e só com ele — vêm a tiracolo.

Não olhei um só texto do jornal de hoje. Portanto, não faço juízo sobre seu conteúdo. Na verdade, nem sobre a própria 'repaginada' na 'Folha'.

Como escreveu o diretor de Redação do jornal, Otávio Frias Filho, numa de suas considerações sobre o novo projeto, os jornalistas são (ou deveriam ser) céticos quanto às coisas. E avaliar uma publicação pelo que mostra em sua primeira edição sob novo formato não é prova nem garantia de que ela será sempre de determinado jeito.

O motivo é que os vícios da cobertura geral pela Imprensa não se acabam após uma cirurgia plástica. Assim se dá com os homens: não há bisturi ou botox que conserte o caráter.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Contra os moinhos de vento

Eu sei: quem vem a este blog dificilmente encontra assuntos que escapem ao jornalismo. Talvez porque, no fundo, goste disso (há adeptos do masoquismo em toda parte). E o tema de hoje é o espanto diante da repercussão dos temas que nós repórteres consideramos relevantes e daqueles que os leitores comentam.

Antes, umas considerações. Sempre se disse aos aspirantes à reportagem que escrevemos para os leitores e internautas, falamos aos ouvintes, exibimos nossos rostos aos telespectadores. E que é preciso mostrar ao leitor o que ele precisa saber. Mas nem sempre o leitor quer saber do que dizemos a ele, mesmo quando julgamos necessário.

Não se trata de concluir quem está certo ou errado. É difícil. Mas, em determinados casos, essa diferença entre o que redigimos e o que o leitor quer ler (até para não se aborrecer tanto com a realidade; esse pode ser um motivo para o que vou dizer agora) mostra algo que nunca sabemos: quem são aqueles para os quais estamos escrevendo.

Dá para tomar como base os leitores que se manifestam sobre o conteúdo do jornal. Em ‘A Tribuna’, onde trabalho há quase quatro anos, está sendo publicada uma série de cinco reportagens do colega Renato Santana. Tratam das mortes de civis, pela polícia, durante os ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) em maio de 2006.

As matérias têm sido manchete do jornal todos os dias, desde domingo (25/4). Houve repercussão em parte da classe política, sobretudo entre opositores do Governo Estadual. Mas, e os leitores? Como se manifestam diante do assunto?

Do que nós repórteres tivemos conhecimento, desde então, foi de parcas manifestações de leitores elogiando outras matérias. Não desimportantes, porém, amenas. Parabéns pelo texto sobre resultados de pesquisas arqueológicas no Valongo. Vivas aos saudosos tempos do antigo Matadouro, na Zona Noroeste santista, relatado no jornal.

O único telefonema de que se sabe sobre os textos do Renato veio logo no domingo. Era uma leitora que dizia mais ou menos assim: “É uma inversão de valores! Eles morreram porque tinham que morrer. Agora o jornal fica dando espaço para bandido?”. Bandidos, vírgula: as matérias mostram que a grande maioria dos mortos não tinha ficha policial.

Vejo que não é para menos eu ter escrito, certo dia, que “o santista é um reacionário medíocre” (clique aqui para ler).

Fazer jornalismo isento e sério nesta região é uma missão quixotesca.

sábado, 17 de abril de 2010

Um teste à influência da mídia

Não tinha visto o noticiário de hoje. Saí rapidamente para o supermercado e, na banca de jornais no meio do caminho, uma manchete da 'Folha de S. Paulo' sobre a "dianteira" do presidenciável José Serra (PSDB) na mais recente sondagem eleitoral do Datafolha.

No meio da semana, levantamento do Instituto Sensus apontava um empate técnico entre o tucano e a pré-candidata do PT ao Planalto, Dilma Rouseff.

Mas de que serve uma pesquisa de intenção de votos a cinco meses e meio das eleições? De que valem números e gráficos se o eleitorado, em sua imensa maioria, não faz a menor ideia das propostas dos futuros concorrentes à Presidência?

No fundo, não é perda de tempo. O consumidor de informação (leitor, ouvinte, internauta, telespectador) um pouquinho mais atento perceberá o que a mídia quer. E se, em outubro, a maioria do eleitorado agir ao contrário do que pretendem certos empresários de comunicação, veremos a influência desses grupos sobre a opinião das pessoas.

A julgar pelos possíveis resultados, pode ser o início de um caminho pelo qual a Imprensa irá recuperar sua credibilidade. A não ser que o baronato midiático opte pela teimosia.

Alguém vai se dar mal.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nós e os outros

Encontrei o texto a seguir na Internet. É do falecido jornalista Cláudio Abramo e foi incluído num livro de sua autoria, chamado 'A Regra do Jogo — O Jornalismo e a Ética do Marceneiro'.

O que vocês (jornalistas ou não) acham disto? Nascido em 1923, Abramo morreu em 1987.

"Uma grande tragédia do jornalismo brasileiro é o papel extremamente grave que desempenham alguns jornalistas irresponsáveis, em nome de uma independência ilusória, que eles não têm. Esses jornalistas pesam muito porque veiculam coisas sem verificar, mentem, fazem afirmações absolutamente gratuitas. E isso é muito grave num país como o Brasil, em que os jornais não têm meios de aferir imediatamente se aquilo que está sendo publicado é verdade ou não; freqiientemente, não se dão a esse trabalho. Assim, transformam-se em cúmplices desses jornalistas. Os jornalistas irresponsáveis – que são muitos, no Brasil, e em grande parte estimulados por alguns jornais – são hoje responsáveis por uma grande parte da desfiguração das noções sobre o mundo contemporâneo. Eles são responsáveis pela falsificação da realidade, colaboram com isso. São como as novelas de TV, que harmonizam todos os conflitos.

É muito nefasta a influência desses jornalistas, que de outra forma traba1havam bem – alguns até trabalharam comigo e não se permitiam certas coisas. Se mandassem uma matéria com algum tipo de irresponsabilidade, eu logo dizia: “Olha aqui, ô vigarista, você está pensando o quê? Vai escrever isso no país em que você mora, não no meu jornal”. Eu não permitiria coisas como li um dia na matéria de um correspondente, que escreveu que um banqueiro não identificado 1he teria dito que o Brasil deveria vender a Petrobrás. O jornal não deve publicar uma coisa séria como essa, a não ser que se dê o nome do banqueiro. Sem o nome, a informação não tem valor algum, ainda mais que a opinião é, na verdade, de quem escreve. No momento em que o jornal aceita isso, transmite aos repórteres a mensagem de que eles podem fazer o que quiserem.

O duro é que a irresponsabilidade está passando para a sociedade. Caso se pare o carro numa esquina à procura de uma rua, o sujeito que está atrás já mete a mão na buzina – isto é, todo mundo cobra do seu semelhante, em vez de cobrar do sistema e do regime. É o sistema capitalista que provoca as injustiças, as inadequações, as desigualdades, mas ninguém cobra do sistema e sim do seu semelhante. É a redução clara do nível de combate: o que deveria ser um combate coletivo transforma-se em pequenas refregas individuais. E uma culpa muito grande quanto a isso cabe aos jornalistas irresponsáveis".

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O mais baixo na escala

Cada coisa: andei pensando, dia desses, em Boris Casoy. Foi por causa daquele comentário indecente que fez sobre garis que desejavam Feliz Ano-Novo aos telespectadores do 'Jornal da Band'. E também porque, faz umas três semanas, o Ministério do Trabalho e Emprego tem concedido registro a qualquer pessoa, diplomada ou não, para o exercício da profissão de jornalista.

Ligando os pontos, imaginei um telejornal apresentado por lixeiros. E, na chamada para os comerciais, dois repórteres desejando um 2011 melhor aos telespectadores.

Se vazasse o áudio de um dos garis-apresentadores...

— Caraca! Dois jornalistas, do alto de seus bloquinhos, desejando Boas Festas. Dois jornalistas... O mais baixo na escala do trabalho!

* * * * * * * * * *

Por não defendermos como deveríamos a nós e aos outros, o que resta de credibilidade e relevância a esta categoria (na qual qualidade, ética e compromisso social têm sido deficientes) tende a ser varrido e jogado no aterro sanitário da História.

E se, desde sempre, respeitássemos quem trabalha honestamente — 'margaridas', limpadores de valas, catadores de papelão, por exemplo —, não veríamos jornalistas desprezando gente humilde e fazendo questão de andar com cidadãos que não valem o lixo que jogam fora.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Proibido colar cartazes

“Brasil, um país de todos”. “Governo de São Paulo, trabalhando por você”.

Na primeira frase, uma obviedade (1). Na segunda, uma obrigação (2). As duas, porém, são divulgadas em forma de propaganda ampla, colorida e reluzente. Que custa uma fábula. Paga por mim. Por você. Por todos nós, detentores do Brasil.

Quem não se detém, por exemplo, é a Sabesp, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. Andou fazendo propaganda nas regiões Norte e Nordeste, onde não gerencia um manancial.

“É uma empresa de economia mista”, alega a direção da Sabesp. Ainda assim, a maioria de suas ações (ainda) pertence ao Estado. Ao contribuinte paulista. A quem não perguntou se tem interesse em anunciar a grandiosidade da companhia à nação.

“É uma empresa de soluções ambientais”, ou seja, não trata só de água e esgoto. Mas, quem compra “soluções ambientais”? Prefeituras? Outros governos estaduais? Se é algo institucional assim, para que propaganda na TV? No rádio? Em revistas? Uma oferta formal de serviços seria o bastante.

Dentro do território paulista, o Estado produz, desde agosto, os chamados 'boletins regionais'. São informativos de quatro páginas, com papel de tamanho A4 (sulfite), em cores, com fotos e infográficos. Diz o Governo que o distribui a 52 cidades paulistas, cinco delas da Baixada Santista.

A Secretaria de Comunicação do Estado justifica que investe R$ 680 mil por edição. São 44 mil exemplares por cidade. Portanto, uma unidade sai por 30 centavos. E afirma cumprir princípios da Constituição Federal no que se refere à divulgação de seus atos.

Não pode. Mas nem precisa

Tomo a liberdade de escrever uma frase que ouvi, dia desses, do advogado de uma grande empresa do setor imobiliário para justificar por que a defende: “A Justiça nem sempre é justa”. E a adapto (mal, eu sei) com uma expressão: “A lei nem sempre é para as pessoas”.

O Artigo 37 da Constituição Federal aponta que um dos princípios do governo é o da “publicidade”, ou seja, tornar públicos seus atos. E o inciso XXII desse artigo expressa que “A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social (...)”.

Nas entrelinhas, o que leio é uma brecha legal para o uso descarado e cínico de dinheiro público em propaganda eleitoral fora de hora. Governos não têm feito publicidade para tornar público. Fazem publicidade para si, para promoverem o governante de plantão ou alguém que tenha sua preferência para a eleição seguinte. Que o digam numa obra do PAC ou às margens do Rio São Francisco.

O resto do inciso XXII indica que a publicidade deve ser feita “não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”.

Não é preciso. As “autoridades”, quando fazem discursos repetidos à exaustão nos noticiários, associam-se sem fazer força aos “atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos”. O eleitor/contribuinte/cidadão percebe a ligação. E, muitas vezes, vota em quem faz isso, exatamente por juntar os pontos.

"Dandar pra ganhar vintém"

E por que não se vê uma linha na mídia para, ao menos, questionar essa relação?


Porque a mídia se vale disso. Quando não gosta de um governante, critica-o por propagandear o que faz. Mas, quando está alinhado a outro, pede a ele sua inclusão na cota de publicidade oficial. Vive desse expediente.

É algo tão absurdo que já houve ex-prefeito, em Santos, mandando anunciar nos meios de comunicação locais que o Município estava sem caixa! Faz uns dez anos, isso. Mas tinha verba para a propaganda. Para dizer, de algum modo, que estava fazendo alguma coisa. Precisava aparecer.

Daí porque defendo a proibição da propaganda oficial, no Brasil. Quando o governo faz algo, percebe-se. Pode ser na qualidade da água, no conteúdo ministrado nas escolas, na possibilidade de estacionar o carro na rua sem que ninguém o arrombe, na garantia do direito de sair à rua em paz. Recurso aos meios de comunicação, exclusivamente por força de utilidade pública.

Ilusão, compreendo. Pagando, que mal tem? Só se for para mim e para você também. Afinal, disso se beneficia alguém. E muito bem. (3)

Observações:
(1) No entanto, há os que se acham uma parte especial do todo. Ou seja, "mais iguais" do que outros;
(2) Que nem sempre é cumprida
(3) A rima pobre evidencia minha falta de talento para a propaganda


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Dois prêmios, duas considerações

O prêmio que o colega Alexsander Ferraz, repórter-fotográfico de 'A Tribuna', receberá na próxima semana tem dupla relevância. Primeiro, por ser o Vladimir Herzog, relacionado a Direitos Humanos, algo que nem sempre se respeita por estas bandas. Depois, por se tratar de uma foto feita na Ponta da Praia, bairro nobre de Santos, no qual o sossego é só aparência.

Para quem não sabe ou não viu, a imagem registrada pelo Alex era a de uma mulher morta, dentro de um carro. Levou um tiro no coração, depois que marginais a abordaram para levar dela cerca de R$ 18 mil que havia acabado de sacar de uma agência bancária. A tal 'saidinha de banco'. Ao redor, o pai e o marido dela, aos prantos, cercados por policiais também abatidos com o crime.

É bom que imagens assim sejam vencedoras de prêmios tão relevantes. Servem para mostrar que regiões consideradas tranquilas estão muito longe disso. Mesmo quem não é gente 'de bens' sofre com o banditismo. Eu que o diga. Até flores estão levando dos quintais das casas.

A foto do Alex tem que ser vista de novo pelas autoridades. Elas precisam se lembrar com o que estão lidando.

* * * * * * * * * *

E as companheiras de Redação Suzana Fonseca e Tatiana Lopes estão entre os finalistas do Prêmio Esso de Jornalismo. Dedicaram-se por dias ao caso de uma jovem que descobriu ter sido sequestrada quando bebê e procurava pela verdadeira família. Suzana e Tatiana acharam seus pais, irmãos e outros parentes. Reuniram uma família separada durante 29 anos. Foram parar no 'Fantástico'.

Saberão do resultado final em 8 de dezembro, no Rio de Janeiro. Mas já são vencedoras: conseguir tamanho destaque em meio a 1.091 trabalhos enviados é uma vitória. E uma demonstração de que, se nos fossem dadas condições adequadas para fazermos reportagens de verdade com mais frequência, ganharíamos todos um valioso prêmio: a satisfação por um trabalho útil e bem-feito.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O mundo é dos espertos

O britânico Ronald Biggs assaltou um trem-postal em 1963. Nos vagões, em valores de hoje, havia em torno de 100 milhões de reais. Foi preso, fugiu da cadeia e veio parar no Brasil. Teve aqui um filho e, por isso, não foi extraditado. Riu das autoridades, gastou muito, teve boa vida.

Mas envelheceu. Ficou doente. Adoeceu de novo. Tornou-se um inválido. Ainda assim, no fim de semana passado, conseguiu chegar aos 80 anos. E, de presente, o famoso larápio ganhou uma reportagem exclusiva — e comemorativa — na última edição do Fantástico (domingo, 9/8), da Rede Globo.

Numa época em que não se consegue conter a criminalidade e os órgãos oficiais de segurança pública perdem terreno para os bandidos (que continuam agindo mesmo dentro das prisões), o programa de maior audiência da televisão nas noites de domingo glamuriza a desfaçatez de Biggs e afirma ao país que o mundo é dos espertos.

Quero ser o ladrão

Ao ver a reportagem, duas situações me vieram à mente. A primeira, uma gincana entre pais e filhos que se passou, no início de março, no Programa Sílvio Santos, do SBT. Na apresentação dos participantes, ocorreu o seguinte diálogo:

— Qual é a profissão do seu pai? — perguntou o apresentador.

— Ah, é melhor nem falar... — respondeu a menina.

Quase num sussurro, o pai interveio
:

— Sou policial.

O segundo fato se deu menos de uma semana atrás, quando levei minha filha de 6 anos a um parque público perto de casa. Ao nosso lado, três meninos, pouca coisa mais velhos do que ela, se juntaram:

— Vamos brincar de polícia e ladrão! — decretou o primeiro.

— Eu sou o ladrão! — candidatou-se o segundo.

— Eu também! — ofereceu-se o terceiro.

Negócio é sair no tapa


Ainda no Fantástico, amplo destaque para uma cena recente da novela Caminho das Índias: nela, a personagem Natália, interpretada por Christiane Torloni, espancou a vilã Yvonne (Letícia Sabatella). Esta ganhara valiosas joias de Ramiro (Humberto Martins), marido de Natália. Uma surra vingadora.

Pois levaram Letícia Sabatella ao estúdio do Fantástico para falar no assunto. Ela parecia desconfortável ao tratar do tema, diante do enfoque imposto pela produção do programa: opiniões populares sobre a agressão à personagem (com comentários do tipo “Eu faria o mesmo”, “Apanhou pouco”, “Quem merecia a surra era o marido”) e uma entrevista com um especialista em novelas, cujo nome não me lembro e que relatou, animado, as mais memoráveis trocas de sopapos de todos os tempos nas novelas da Globo.

Agressões físicas acontecem, sim, na vida real. Mas tenho para mim que a repercussão de um caso fictício em mídias de grande audiência pode fazer com que pessoas traídas troquem um diálogo sério, pacífico e definitivo com o cônjuge pela pancadaria geral e irrestrita. Não há Lei Maria da Penha que dê jeito.

Em tempo: vi na Folha Online que, no capítulo desta noite (terça-feira, 11/8), um marido traído (Abel, interpretado por Anderson Müller) não mais irá esbofetear a mulher (Norminha, por Dira Paes). Ao descobrir as escapadas da esposa, jogará seus pertences pela janela de casa e a mandará embora.

Terá a Globo sido sensível a eventuais apelos de não agressão ou percebeu que o negócio é sair no tapa, mas nem tanto?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ponha-se no lugar dele

Não pagou pensão alimentícia? Que seja punido. Mas isso e suas consequências são problemas particulares. O problema é que, quando o sujeito é ou já foi celebridade, deixa de ter vida própria: é como se também fosse dos outros.

Graças a quem? Aquele(a) que respondeu "mídia" ou "Imprensa" acaba de ganhar um doce virtual. A seguir, um artigo que escrevi, publicado nesta semana no Observatório da Imprensa:

* * * * * * * * *

JORNALISMO FOFOQUEIRO

A pisada de bola de Romário

Por Rafael Motta em 21/7/2009

Sim, havia motivo para que fosse preso: deixou de pagar pensão alimentícia à ex-mulher, com quem constituiu família. E 89,6 mil reais são uma bolada. Mas penso que a situação constrangedora pela qual o ex-jogador de futebol Romário passou na última semana é um problema exclusivamente dele. De que isso interessa aos outros?

Na dúvida, um batalhão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas se acotovelou na delegacia onde Romário pernoitou. Enquanto estava detido, jornalistas fizeram o de sempre: procuraram saber onde foi encarcerado, em quais condições, se comeu, se dormiu e que visitas recebeu em sua passagem por trás das grades.

Casos assim me fazem lembrar a diferença que se diz existir entre assunto de interesse público (o que as pessoas precisam saber e, supostamente, dá pouca audiência) e assunto de interesse do público (aquilo que, na teoria, as pessoas querem saber e, por isso, vende mais).

Sorriso enigmático


À medida que cresce a concorrência digital com o jornalismo ao qual nos acostumamos, mais me incomoda ver a mídia se esforçar tanto para futricar sobre a vida alheia (mesmo se tomando como verdadeiro o que se contou a respeito do Baixinho) e menospreze seu papel de fiscalizar temas que poderiam levar a perguntas mais profundas, em casa e na rua, do que "E o Romário, hein?"

Talvez o enigmático sorriso que Romário dirigiu aos jornalistas ao deixar a carceragem tenha este significado: o de que a imprensa tem muito mais com o que se preocupar – e nem sempre se ocupa disso como deveria.

terça-feira, 14 de julho de 2009

'Descaminho' das Índias

Você assiste à novela das nove na Globo? Tem coisas divertidas, mas uma delas, que está para acontecer (e a forma como foi relatada numa revista), me motivou a escrever o artigo a seguir para o Observatório da Imprensa, intitulado O descaminho da mídia no Caminho das Índias. Aí vai:

* * * * * * * * * *

Não sei quando o capítulo irá ao ar, mas será quente, a julgar pelo destaque principal da capa da edição 514 da revista Minha Novela, totalmente em caixa alta, sobre o folhetim Caminho das Índias, da Rede Globo:

NORMINHA LEVA UMA SURRA DO MARIDO – ABEL DESCOBRE AS TRAIÇÕES DA MULHER E ACABA COM A RAÇA DELA

Para quem não assiste à novela, Norminha (interpretada pela atriz Dira Paes) é uma mulher que, na hora de dormir, costuma dar calmante ao marido, Abel (Anderson Müller), para ir dançar numa gafieira, à noite, e se insinuar para outros homens. Mas não admite que ele olhe para outras moças nem que seja simpático com elas.

Apesar dos incontáveis casos de violência doméstica contra a mulher e do quanto se precisou avançar até a sanção da Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 2006) para coerção dessa prática, parte da mídia se comporta como se apoiasse a agressão física em situações de "legítima defesa da honra".

Não basta demonstrar, nas entrelinhas, satisfação com o cidadão que reage ao adultério (e não importa que seja na ficção; há gente que transpõe certos atos para a realidade). É preciso tripudiar de quem apanha, como parece ocorrer na expressão pela qual o homem traído "acaba com a raça dela".

Violação de humanos

Neste caso, além da revista, a Globo tem sua parcela de responsabilidade. Ao planejar a transmissão de uma cena de violência em rede nacional e numa novela que pode ser vista por crianças a partir dos 12 anos (e tem meninos e meninas ainda mais novos no elenco), parece ignorar os termos de algo que tanto pareceu apoiar em seus noticiários: justamente, a Lei Maria da Penha. E, por tabela, a Constituição brasileira.

No capítulo que trata das medidas integradas de prevenção à violência doméstica, o artigo 8º da lei expressa que "a política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais". No inciso III desse artigo, consta como diretriz dessa política "o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1º, no inciso IV do art. 3º e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal".

Justo. Afinal, conforme aponta o artigo 6º da Lei 11.340, "a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos".

"Demorô", diz a leitora

Ao se considerar a mídia como transmissora de ideias e formadora de opinião, ganha importância o fato de que parte da sociedade tem em mente, de maneira equivocada, que certas coisas só se resolvem no tapa. Adiante, de modo fiel ao que foram escritos, alguns dos comentários à matéria feita por Minha Novela sobre a cena, feitos na página da revista na internet.

De um homem: "Tem que apanhar mesmo para deixar de ser safada".

De uma mulher: "Não sou a favor da violência, mas Norminha merece apanhar um pouco, pois mulher sem-vergonha merece isso mesmo! Isso serve pra todos aqueles que traem seus parceiros verem que traição se paga com vingança e umas porradas também!"

De outra mulher: "Eu acho certíssimo Abel dar uma surra em Norminha, mais o pior é que existi nesse mundo muitas mulheres q não dão valor ao marido".

Mais uma leitora: "Demorô! Até que enfim a periguete da Norminha vai sofrer um pouquinho".

Vai mesmo, segundo a publicação – que, a propósito, se intitula "A melhor revista de novelas do Brasil". Aí vai o fim do texto: "O amor se transforma em ódio e Abel lhe dá uma surra daquelas. E troca de lugar com a esposa. A partir daí, Abel vira um conquistador e Norminha só terá um objetivo na vida: reconquistar o amado".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Rumos para os jornais

"Em países onde o acesso à internet é mais amplo do que no Brasil, os jornais impressos têm a preferência do público sobre outros meios de acesso à informação. É o que aponta levantamento feito pela consultoria PricewaterhouseCoopers, em conjunto com a Associação Mundial de Jornais. O resumo desse estudo, publicado nos jornais desta segunda-feira (18/5), indica que cerca de 60% dos que têm entre 16 e 29 anos (o público-alvo para o futuro do negócio) optariam por ler o noticiário no papel, e não na tela, caso tivessem de escolher".

Este é o início de um artigo que escrevi para o Observatório da Imprensa desta semana, que pode ser visto aqui. Você, jornalista ou não, o que acha?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Para nós, jornalistas

"Enquanto se debate a reformulação do modelo curricular das faculdades de Jornalismo, um acontecimento paralelo poderá ter desfecho capaz de transformar essas instituições em algo dispensável: o julgamento, marcado para esta quarta-feira (1º/4), no qual o Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá pela exigência ou não de diploma universitário para se exercer a profissão de jornalista".

Acima, o início de um artigo que escrevi para o Observatório da Imprensa desta semana. Para lê-lo na íntegra, clique aqui. Há mais textos sobre o assunto no Observatório. E você, o que pensa?

terça-feira, 10 de março de 2009

A mídia e a crise

O artigo a seguir foi publicado na edição desta semana do Observatório da Imprensa, na seção Feitos & Desfeitas.

A mídia produz sua própria crise

Por Rafael Motta em 10/3/2009

Sim, crise é oportunidade. Chance única para quem está disposto a largar o comodismo e pensar em soluções para a sobrevivência de seus negócios, a continuidade de seu trabalho, a valorização da própria vida.

Não é o que fazem, de forma generalizada, dirigentes de veículos de comunicação.

Diante de uma crise, quando deveriam aprimorar seus produtos para continuar a vendê-los, reagem com demissões, supressão de vantagens trabalhistas, controle extremo de cartões de ponto, aperto nas despesas com reportagens.

Fica fácil concluir que, para a mídia, a crise deverá se agravar. Por que pagar por um jornal ou revista ou acompanhar determinada emissora de TV ou rádio, quando perdem conteúdo e não satisfazem o interesse do consumidor de informações?

O efeito dessa propalada situação crítica tende a ser pior. Motivo: proprietários de meios de comunicação cortam gastos, por alimentar a ilusão de preservar seu lucro.

É que essa medida dura pouco – até o empresário perder audiência ou notar o aumento do encalhe. E se sabe o que fará: dispensará gente, obrigará quem sobrar a acumular funções e ampliará o controle de gastos com a produção jornalística. Um círculo vicioso.

Notícia tem hora?

Conheço um jornal que proibiu seus jornalistas de fazerem horas-extras. Encerrado o expediente, têm de ir embora. Não acabaram de apurar e escrever a matéria? Paciência. Informação não é prioridade. Editores e diagramadores que se virem para preencher espaços em branco.

Contudo, sempre há um repórter a se lembrar de que é bacharel em Comunicação Social – portanto, um jornalista que trabalha para a sociedade, para as pessoas, para quem lê o que escreve.

Apesar da pressa que lhe é imposta, ele investe no assunto, produz boa reportagem, o texto merece destaque na primeira página. Cumpre bem seu dever. E o que ouve, no dia seguinte, de seu chefe?

"Você passou 12 minutos do seu horário. Está aqui, no controle de ponto."

Em resumo, o repórter recebeu uma censura por ter gerado despesa equivalente ao preço de um exemplar do jornal para o qual trabalha.

Que estímulo terá para se dedicar como deveria à função? Como se sentirão os jornalistas que restaram, após tantos enxugamentos?

Isso dá a entender que, se houver investimentos durante esta crise, será em formas de explorar, em vários sentidos, a capacidade do contingente cada vez menor que consegue emprego no jornalismo cotidiano.

Jornalistas convergentes

Faz bem pouco tempo, li matéria curta (e, superficiais como as publicações têm se mostrado, isso virou regra) a respeito de um jornal do Rio de Janeiro que começou a apostar na "convergência de mídias".

Para se alcançar "o futuro do jornalismo", na opinião do editor-chefe desse veículo, preparam-se repórteres para que, munidos de telefones celulares, filmem e fotografem as matérias e as transmitam à redação de dentro dos carros de reportagem, onde haverá laptops à disposição para que o façam dali mesmo. Aos editores caberá também a tarefa de analisar os vídeos que chegarem.

Que qualidade jornalística poderá ter um material preparado às pressas por gente sobrecarregada? Numa comparação grosseira, é como exigir tratamento médico de primeiro mundo para pacientes do SUS.

Os veículos de comunicação vivem, assim, sua própria crise. Não é nova, mas têm adotado soluções também velhas. E perdem a oportunidade de sair e se refazer dela.